Hoje deixei o meu lar sob céus de chuva, que feita copiona reproduziu o meu estado de espírito.
Sempre gostei da chuva. Sempre me deu uma sensação boa e quente de pertença. Mas não hoje.
Hoje ela banha meticulosamente o verde do Norte. Eu aregalo bem os olhos, vejo bem tudo, e tatuo tudo no meu coração para que permaneça mais tempo. Tento, como Grenouille, embebedar-me das cores da minha terra, o verde, o cinza, o castanho, e embalo-me nessas sensações e nesse sentimento.
Mas entre a saturação, o cansaço e a saudade, a névoa da asfixia vai subindo, e subindo..
No meio do nevoeiro, tropeço e apalpo, cega à paisagem que corre e se afasta de mim, o meu cabelo húmido a colar-se à cara, um enorme frio nos ossos e uma sensação de estranheza a instalar-se. Como se estivesse deslocada mesmo nos lugares que o meu coração ama.
O meu coração ama... o meu coração ama estes rios e este Mar que fazem parte de mim, as águas que me banham e que abraçam as minhas lágrimas, como se de irmãs se tratassem.
O vento frio a saber a areia vergasta o nevoeiro e amestra-o, e ele diminui de tamanho temporariamente, mas não para sempre. A asfixia acalma e respiro parcamente outra vez, em golfadas rápidas e magoadas.
Retorno à terra do Sol, sem sombra e implacável e deixo as terras do Mar e as suas folhas, e os seus verdes, e os seus campos. Guardei as estrelas-do-mar e os limos guardei-os na gaveta para usar no meu retorno, e os caranguejos... aninhei-os no meu coração, porque me estrangulam de saudade e não me deixam respirar.
Hoje sei que vou dormir sobre a terra quente e sem sombra do Sol, e entristeço-me de felicidade, pois vou sonhar com o Reino que deixei ao pé do Mar...