sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Um.

Abri os olhos na Terra de Ninguém.
O céu estava polvilhado com todas as estrelas do firmamento, diamantes sobre negro que se consumiam e revoltavam nelas próprias. Sem vontade abdiquei do aconchego dos limos e das carícias dos caranguejos no meu cabelo e emergi do canal dos sonhos.
Olhei um "nocturno coração", todo ele paz, sombra, e pirilampos a iluminar o caminho. 
Um corvo cambaleou num voo negro e pousou no meu ombro, rasgou-me a pele nua e molhada. Não quis saber. 
Crocitou-me ao ouvido "Novas. Terrenos do Sul destroçados."
Suspirei, sem emoção. O corvo partiu, penas a rasgar o silêncio.

Encaminhei-me calmamente para os campos de Marte, as botas a abrir caminho na erva alta. Devia ter calculado que uma turbulência qualquer poderia causar estragos aí. Aconcheguei o manto à roupa, ainda húmida, um gesto mais pelo hábito do que pela necessidade.
O que vi partiu-me o coração. Uma convulsão saiu da Terra e engoliu os jardins que ardiam em protesto à violência, piras engoliam as flores e a erva e as oliveiras gemiam e crepitavam, ainda agachadas mas sem defesa.
Achei de certa forma desconcertante um protesto no meio de um campo belicoso por nome, por ser despropositado.
No coração tem que haver um lugar para tudo, não é nem deve ser um lugar esterilizado, mas convém que seja organizado. Estas brincadeiras pacifistas tinham o seu lugar e o seu tempo. Mas estando desprovida de humor asfixiei as chamas entre os meus dedos. Queria chorar, mas não tinha emoção. 
Já me bastava ter um Sátiro à solta que volta e meia punha tudo em pantanas. Mas isto.. isto era algo totalmente diferente. Era guerra aberta. 

Guerra.
Franzi um sobrolho. 
"Cérebrus". Mal sussurrei o nome, três cabeças materializaram-se ao meu lado. "O Guerra foi solto. Temos que elaborar um plano de contingência."
"Como sabes que foi ele?"
"Ele nunca foi muito subtil. Como produto do meu subconsciente penso que até tu te apercebes da alegoria foleira do campo de Marte".
Três rosnadelas em resposta.
A fraca sensação do "mais está para vir" abateu-se entre nós. Conseguia sentir o palpitar assustado de Cérebrus, o chefe de segurança, mas não conseguia corresponder. Cabe-lhe o trabalho de ficar assustado, com medo, porque é ele o Anticorpo que protege o meu mundo. Eu sou apenas a observadora.

Retirei-me para equacionar o problema, enquanto as três cabeças ladravam ordens ou salivavam.
Havia um cerco a decorrer. Isso não me assustava porque aquele Guerra é um menino, e toda eu me envolvo em selva que antecede as muralhas. Os monstros que a patrulham irão dar cabo dos seus exércitos de metal.
 Mas preocupava-me o destino dos pequenos heterónimos da minha alma e por isso dirigi-me à Árvore-Biblioteca. Tudo estava bem, um silêncio calmo envolvia a noite. A Árvore estava iluminada com pequenas lanternas, que me ajudaram a encontrar o que queria.
Abri o livro da Alice, e invoquei a Mally, a ratinha esgrimista. Disse-lhe para dispensar a vénia e enviei-a para as Terras do Este, para assegurar que as  planícies eram avisadas de que algo iria chegar. Já me bastou perder o campo de Marte, as terras de Ceres ficariam imperturbadas.
Abri Tolkien e invoquei as Águias, que tudo viam. A vénia foi minha. Pedi-lhes para avisarem as Montanhas do Norte, para que protegessem as terras mais queridas do meu coração. Os seus chamados seguramente acordariam as fadas e os centauros, os sátiros, os ents e os outros seres das florestas. Juntos iriam proteger a terra.
Para o Oeste invoquei uma das minhas memórias mais queridas. Para isso desci à sala que fica por baixo da Árvore, a sala da saudade. Não precisei de luzes no negro, a sua forma elegante iluminava, bruxuleante, a divisão. Sentei-me no chão à frente dela, e ela olhou-me com os seus olhos verdes líquidos, fantasmagóricos.
Lilith compreendia. O vapor do seu corpo alongou-se num espreguiçar e avançou para as terras de Oeste. Ela é a voz da calma e da segurança, e os felinos irão segui-la sem medo.

Atordoada, voltei para o jardim. Abri mais um livro.
Martin emprestara duas das figuras mais impressionantes ao meu imaginário. Drogon veio primeiro. Asas pretas sobre o negro da noite, todo ele um pleonasmo sob o céu estrelado. Dois olhos ardentes à espera. Toquei-o no peito e ele percebeu o que lhe era pedido. O meu coração não cederia, seguramente. A enorme deslocação de ar incomodou as lanternas, que vacilaram nos seus postos, mas mantiveram-se corajosas na noite.
Nymeria surgiu depois da partida do dragão. A loba gigante veio a trote, a aura régia que emanava fez as pequenas criaturas que habitavam a Árvore encolherem-se de respeito. O seu olhar de sangue era frio, tinha fome de morte. Baixei o joelho.
"Minha Rainha".
Senti os seu olhar sanguíneo beber as minhas intenções. Uivou. Um vento gelado do Norte levantou-se, um beijo do Inverno que combinava com a noite. Um coro de vozes caninas respondeu ao longe. Partiu, a forma alva contra a noite de ébano, um fantasma de carne e desejo que tinha um trabalho a fazer.

Trepei a uma das torres, braços nodosos e folhas que se entrançavam. Estava entretida com a subida, cansada e a tentar distinguir o caminho no escuro e não me apercebi da sua presença. Foi um sobressalto.

"Podias ao menos avisar." lançou ele "Sabes que te posso ajudar."
"Não sei porque deva avisar-te de coisa alguma. Também não me avisas quando me roubas as minhas coisas. Não sei em que medida é que me poderias ajudar com este problema." Não trazia a caixa.
"Não achas que poderias resolver o problema mais facilmente se isto estivesse melhor iluminado?" um sorriso matreiro espalhou-se nas suas pequenas feições, mas não chegou aos olhos. Estava preocupado, a pequena ruga entre os olhos traiu-o.

Suspirei. Equacionei o facto de que acima de tudo era um sátiro jovem, e que quem tem que pesar as consequências das suas sugestões vazias sou eu. Mordi a língua para não lhe dar a resposta que merecia, por um lado porque me compadeço. Não é fácil o trabalho dele. Se existe nesta Terra de Ninguém é porque tem um propósito, e eu batalho-o com todas as forças que tenho. Não é pelo seu feitio rezingão e sarcástico que bebe muito do meu. Mas sim pelo trabalho que tem a fazer, que uma e outra vez só me trouxe dor.

"Vejo que já não andas com a minha caixa atrás de ti." repliquei. Tive como resposta um ar de pena que me desorientou.
"Está demasiado cheia e pesada e não consigo andar com ela atrás de mim como antes. Não te preocupes, está bem guardada."
"E esse ar de pena é de quê?"
"Sabias que a dilatação do coração é um problema sério?".

Uma gota de água aterrou na ponta do meu nariz.
Troquei os olhos de surpresa, e a resposta fugiu-me da ponta da língua. Olhei para o Sátiro, que tinha um ar tão estupfacto quanto o meu, no meio da chuva impossível. Olhei para cima. Uma nuvem laranja, gigantesca, qual disco voador saído de um quadro de William Blake pairava sobre as nossas cabeças, a Árvore Biblioteca, as planícies, as florestas. Materializara-se não sabíamos como.
E em resposta, o meu corpo metafísico deixou de responder. Senti-me aprisionada num cenário que não era meu, engolida pela impossibilidade das opções. E eu imaginária desfaleci, o meu corpo deslizou entre o ar e a chuva poluída e as folhas e os galhos, pairou uns segundos e despenhou-se contra o chão.




domingo, 9 de setembro de 2012

Metereologia

Fiapos de nuvens pairam sobre a cidade de Tomar, ofuscando o Sol. 

Saí da Muralha exterior e olhei por cima do ombro. O calor extremo tão perto da minha pele era quase agradável, como se a sua força, de mansinho, se esticasse até ao limiar do meu sentir. Até o crepitar violento era atraente. Virei-me para ficar de frente, admirar as labaredas a lamber por camadas a Estrutura. Era tanto ao quanto fenomenal, a noção de que algo tão inédito e inóspito pode morar no coração de alguém. Depositei um beijo no nariz do Cérebro (o do meio), e uma festa nas cabeças laterais para não sentirem inveja, meti as chaves no bolso encaminhei-me para a estrada. 

Os sacos do lixo pesavam-me na mão. É uma caminhada curta até aos caixotes, e consigo observar alguma paisagem, o que é relaxante, ajuda-me a respirar.. Para mim, é uma terra um pouco insípida, que só acorda verdadeiramente com a chegada da chuva. Tirando a Mata e o Rio, cheios de vida e do suave restolhar do movimento das folhas entre a luz e a sombra, tudo o resto se resume ao retorcido de oliveiras, que se agacham sobre si próprias, como se a defenderem-se de não-sei-bem-o-quê, e à enormidade de cardos perdidos no meio da erva seca e alta. Mas não é tudo "mau". Mesmo no meio do insípido nascem pequenas flores, delicadas e exuberantes. É como se Tomar nos piscasse o olho e a sorrir nos dissesse "toma atenção às pequenas coisas, há sempre boas surpresas para descobrir".

Ao longe vejo a Nuvem-Mãe, ominosa. Mas sei que é só uma ameaça de chuva. Não haverá um acordar tão cedo. Aqui hiberna-se no Verão, com as cigarras a gritar tanto que parece que vão explodir, e o calor surdo que nos seca por dentro. Volto da minha tarefa corriqueira para a prisão domiciliária. É complicado perspectivar coisas sempre do lado de dentro. Pergunto ao Cérebro houve algum problema na minha ausência: "O sátiro foi visto com a Caixa debaixo do braço."
Rosno e sai-me um "Porra. Sempre a mexer onde não deve." Atiro três bolachas em forma de osso, pela atenção.

As nuvens comprimem-se mas o Sol não aparece. O seu calor está lá, dedos longos e finos que se espraiam pela distância, sinto-os no meu cabelo. Passo pela Muralha de Fogo, entro no pátio interior. Três muralhas depois, chego ao estranho edifício que compõe a minha morada. Trepo pela Árvore-Biblioteca, acomodo-me num ramo bem alto. Aqui não há vertigens. 
À minha volta sobem e descem os discos elevadores, uns com transeuntes e outros vazios; e lá na base da colina vejo o Canal onde mergulho quando vou dormir. 
Deito-me no ramo ( naturalmente ergonómico) e vem o Vento de Norte e acaricia as folhas, e abre caminho pelos fiapos de nuvens. Vejo o mistério dos beijos dourados do Sol nas folhas, e como elas se esticam, de mansinho para os receber. Uma lágrima foge-me solitária e cai no chão. Imediatamente os elevadores páram, a água silencia-se. O restolhar continua, em versão "mute". 

 O pequeno sátiro materializa-se no ramo por cima do meu, olhos maliciosos nos meus. Desafia o meu desalento silencioso e abana uma pequena caixa, com um som mole a emanar a cada movimento. Semicerro os olhos: "Não sei quem te deu permissão para andares a brincar com isso." 
-"A negação é uma coisa muito feia, sabes."
-"Cala-te. Não sabes nada, tu. Cada vez mais sei esperar."