domingo, 9 de setembro de 2012

Metereologia

Fiapos de nuvens pairam sobre a cidade de Tomar, ofuscando o Sol. 

Saí da Muralha exterior e olhei por cima do ombro. O calor extremo tão perto da minha pele era quase agradável, como se a sua força, de mansinho, se esticasse até ao limiar do meu sentir. Até o crepitar violento era atraente. Virei-me para ficar de frente, admirar as labaredas a lamber por camadas a Estrutura. Era tanto ao quanto fenomenal, a noção de que algo tão inédito e inóspito pode morar no coração de alguém. Depositei um beijo no nariz do Cérebro (o do meio), e uma festa nas cabeças laterais para não sentirem inveja, meti as chaves no bolso encaminhei-me para a estrada. 

Os sacos do lixo pesavam-me na mão. É uma caminhada curta até aos caixotes, e consigo observar alguma paisagem, o que é relaxante, ajuda-me a respirar.. Para mim, é uma terra um pouco insípida, que só acorda verdadeiramente com a chegada da chuva. Tirando a Mata e o Rio, cheios de vida e do suave restolhar do movimento das folhas entre a luz e a sombra, tudo o resto se resume ao retorcido de oliveiras, que se agacham sobre si próprias, como se a defenderem-se de não-sei-bem-o-quê, e à enormidade de cardos perdidos no meio da erva seca e alta. Mas não é tudo "mau". Mesmo no meio do insípido nascem pequenas flores, delicadas e exuberantes. É como se Tomar nos piscasse o olho e a sorrir nos dissesse "toma atenção às pequenas coisas, há sempre boas surpresas para descobrir".

Ao longe vejo a Nuvem-Mãe, ominosa. Mas sei que é só uma ameaça de chuva. Não haverá um acordar tão cedo. Aqui hiberna-se no Verão, com as cigarras a gritar tanto que parece que vão explodir, e o calor surdo que nos seca por dentro. Volto da minha tarefa corriqueira para a prisão domiciliária. É complicado perspectivar coisas sempre do lado de dentro. Pergunto ao Cérebro houve algum problema na minha ausência: "O sátiro foi visto com a Caixa debaixo do braço."
Rosno e sai-me um "Porra. Sempre a mexer onde não deve." Atiro três bolachas em forma de osso, pela atenção.

As nuvens comprimem-se mas o Sol não aparece. O seu calor está lá, dedos longos e finos que se espraiam pela distância, sinto-os no meu cabelo. Passo pela Muralha de Fogo, entro no pátio interior. Três muralhas depois, chego ao estranho edifício que compõe a minha morada. Trepo pela Árvore-Biblioteca, acomodo-me num ramo bem alto. Aqui não há vertigens. 
À minha volta sobem e descem os discos elevadores, uns com transeuntes e outros vazios; e lá na base da colina vejo o Canal onde mergulho quando vou dormir. 
Deito-me no ramo ( naturalmente ergonómico) e vem o Vento de Norte e acaricia as folhas, e abre caminho pelos fiapos de nuvens. Vejo o mistério dos beijos dourados do Sol nas folhas, e como elas se esticam, de mansinho para os receber. Uma lágrima foge-me solitária e cai no chão. Imediatamente os elevadores páram, a água silencia-se. O restolhar continua, em versão "mute". 

 O pequeno sátiro materializa-se no ramo por cima do meu, olhos maliciosos nos meus. Desafia o meu desalento silencioso e abana uma pequena caixa, com um som mole a emanar a cada movimento. Semicerro os olhos: "Não sei quem te deu permissão para andares a brincar com isso." 
-"A negação é uma coisa muito feia, sabes."
-"Cala-te. Não sabes nada, tu. Cada vez mais sei esperar."



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