terça-feira, 4 de junho de 2013

da Medusa

2. Boa Constrictor

Acordo com gotas de chuva morna.
morna?
a cabeça do chuveiro a cuspir-me em cima.
a minha cabeça roda, um delírio. paredes da banheira.
zonza.
sinto uma semi-consciência mais potente que a minha, que me tolda, que me agrilhoa a um estado que cada vez mais não é o meu.
o que estou a fazer aqui?

relâmpagos atravessam-me a mente, que confusa, não consegue exceder o clichê.
um bar enevoado pelo fumo. quantidades não identificadas de tequilla, só podia ser tequilla. é o que ela bebe, nada mais, -adormeci pela bebida ou pelo comando dela?- formas cada vez mais confusas ao fundo machos talvez- um boi gigante a chamar-nos um taxi
?!!!!
movimento na porta da casa de banho. a adrenalina do possível perigo parte as algemas do filosofar pela noite perdida e da semi-consciência alheia. sinto algumas outras irmãs insinuarem-se também.
posição de ataque, quem me dera ter veneno na boca!!!!

E então entra uma figura bem conhecida semi-nua pela porta, que nenhuma de nós tem coragem para morder.

Reconheci-o pela sobrancelha cerrada mas curta, e aquele relance metálico das hastes no retrovisor.
Nunca pensei que as entradas fossem tão pronunciadas, distraiam. Os olhos pareciam dois pequenos pontos negros numa confusão de tronco nu, brilho da pele e lentes de ampliação.

Falou calmamente, como se não nos visse - Não tens nada com que te preocupar, o sedativo já deve estar a  funcionar, embora não precises, bebeste bastante. Parece-me que o fígado não se aproveita, mas ficares sem um rim não te vai fazer muito mal - um sorriso fino, duro, cortou-lhe a cara.

O corpo moribundo da Medusa meio enfaixado por roupa ensopada estava estendido na banheira, de costas para cima. Um espasmo de compreensão. Por isso é que conseguia ver tudo sem dificuldade!
O pânico tomou-me. Sentia as minhas irmãs algures, emiti um chamado mental compulsivo, mas elas estavam cada vez mais inanimadas à medida que o sedativo que trepava pelas suas terminações nervosas.
Seria eu a única intocada pelo drunfe?
E comecei a senti-los. Os grilhões.

Outro brilho metálico, desta vez na mão. A lâmina reluzia sob a lâmpada implacável da divisão.
E subitamente apercebo-me de todos os meus poros, de toda a minha real e inútil pequenez. Para que sirvo eu, a negligenciada constrictor, para quem a vida se move em marcha-atrás? Nem veneno tenho -ele move-se lentamente, sem me ver, sem perceber - nem poder muscular, nem posso fugir, Porra! mordi-me na língua!!...
mordi-me...
grilhões... névoa... sinto-me desfale - e reúno todas as minhas forças, que correm, que fogem, e abocanho a omoplata da Medusa. Um chamado que ecoa pelo túnel até antes de um sentido, fraco em direcção a um alvo longínquo na inconciência. E é meio a dormir que vejo toda a perspectiva a mudar e pelo olho da ligação mental sinto uns olhos desprotegidos abrirem-se. E o ar de surpresa marmórea do taxista quando encara os místicos olhos verdes da Medusa.

da Medusa

1. Boa Constrictor

Como abertura a este discurso "in media res", posso-vos dizer que nunca fui daqueles seres que têm uma boa perspectiva da vida. Não é que seja negativista por natureza, mas moro na nuca de um "monstro" mitológico, pelo que é verídico afirmar que sou sempre apanhada de costas por tudo o que me acontece.

Não temos muita liberdade - nós, as habitantes da cabeça da Medusa - pelo que tivémos de aprender a perceber o mundo pelo espírito santo de orelha. No mundo da perspectiva fixa, o diz-que-diz viperino é o prato do dia. Somos seres dentro de um ser, condenadas a aturarmo-nos umas às outras pela eternidade. um estranho condomínio ambulante de personagens que pouco têm em comum para além de um corpo.
Mas chega uma altura em que nem o "diz-que-diz" é fiável, e temos de ver as coisas com as nossas próprias pupilas verticais para acreditar.
Nesta noite decidi tomar as rédias da narração daquilo que também é a minha vida.

Abri espaço entre a Coral e a Naja e ancorei-me no pescoço, no meio das sombras, a ver novelos de fumo do bar desenrolar-se como finos dedos fantasmagóricos, hipnotizantes.
Constatei aquilo que já suspeitava - o silêncio pesado das minhas irmãs personificado num rastro de copos de shot sobre a mesa, carcaças de lima e um saleiro algures no meio da matança.

Perto da minha cabeça, a Cascavel mordeu em seco. Não era uma ameaça, mas sim o sabor do papel de música a instalar-se involuntariamente sobre a língua acompanhado do assentar de arraiais de uma vaga irritação.
Senti uma reverberação de pensamentos atravessar-me. Sentimos todas, como um arrepio, apenas uma sugestão. Mas a massa palpitante dos nossos corpos age sempre em conformidade ao chamado da Medusa, como se não importássemos. Uma onda de desolação abafou-me.
Não é incomum sentir-me desolada, presa que estou num corpo serpentino que nunca irá a lado nenhum, e que o máximo de acção que tem é ameaçar uma das irmãs de mordidelas. Quem me dera poder provar um rato!!
Não, não era incomum em mim a desolação, a desilusão. Mas vivo em simbiose com uma monstra bipolar pelo que por vezes as sensações sufocam-me e não sei o que fazer.
Parecia um daqueles dias em que a nossa sombra era demasiado pesada para um só corpo carregar. Como se nem o Atlas conseguisse processar tal dimensão. Tal solidão. Tal tristeza.

Não sabia o que fazer. Pelo que compreendi a necessidade de anestesia.
Penso que todas o fizémos.
Então ela bebeu.