terça-feira, 4 de junho de 2013

da Medusa

1. Boa Constrictor

Como abertura a este discurso "in media res", posso-vos dizer que nunca fui daqueles seres que têm uma boa perspectiva da vida. Não é que seja negativista por natureza, mas moro na nuca de um "monstro" mitológico, pelo que é verídico afirmar que sou sempre apanhada de costas por tudo o que me acontece.

Não temos muita liberdade - nós, as habitantes da cabeça da Medusa - pelo que tivémos de aprender a perceber o mundo pelo espírito santo de orelha. No mundo da perspectiva fixa, o diz-que-diz viperino é o prato do dia. Somos seres dentro de um ser, condenadas a aturarmo-nos umas às outras pela eternidade. um estranho condomínio ambulante de personagens que pouco têm em comum para além de um corpo.
Mas chega uma altura em que nem o "diz-que-diz" é fiável, e temos de ver as coisas com as nossas próprias pupilas verticais para acreditar.
Nesta noite decidi tomar as rédias da narração daquilo que também é a minha vida.

Abri espaço entre a Coral e a Naja e ancorei-me no pescoço, no meio das sombras, a ver novelos de fumo do bar desenrolar-se como finos dedos fantasmagóricos, hipnotizantes.
Constatei aquilo que já suspeitava - o silêncio pesado das minhas irmãs personificado num rastro de copos de shot sobre a mesa, carcaças de lima e um saleiro algures no meio da matança.

Perto da minha cabeça, a Cascavel mordeu em seco. Não era uma ameaça, mas sim o sabor do papel de música a instalar-se involuntariamente sobre a língua acompanhado do assentar de arraiais de uma vaga irritação.
Senti uma reverberação de pensamentos atravessar-me. Sentimos todas, como um arrepio, apenas uma sugestão. Mas a massa palpitante dos nossos corpos age sempre em conformidade ao chamado da Medusa, como se não importássemos. Uma onda de desolação abafou-me.
Não é incomum sentir-me desolada, presa que estou num corpo serpentino que nunca irá a lado nenhum, e que o máximo de acção que tem é ameaçar uma das irmãs de mordidelas. Quem me dera poder provar um rato!!
Não, não era incomum em mim a desolação, a desilusão. Mas vivo em simbiose com uma monstra bipolar pelo que por vezes as sensações sufocam-me e não sei o que fazer.
Parecia um daqueles dias em que a nossa sombra era demasiado pesada para um só corpo carregar. Como se nem o Atlas conseguisse processar tal dimensão. Tal solidão. Tal tristeza.

Não sabia o que fazer. Pelo que compreendi a necessidade de anestesia.
Penso que todas o fizémos.
Então ela bebeu.

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