Um Pêndulo de pressão agitava-se na minha cabeça.
Era como uma fila interminável de sensações que compõe uma toda emoção. Complexa. Tensa. Estas amontoavam-se e acotovelavam-se para lutar contra a compressão, uma vã tentativa de expansão. Vã tentativa, de facto, chegada a este ponto, só haveria compressão até ao alívio, fraco, tímido, silencioso. Doloroso.
Tentei abstrair-me destes pensamentos lentos e transbordantes por uns momentos, e meio cega pela dor, debrucei-me e observei a pequena cena que se acomodava sobre a precária mesa de bordo à minha frente.
Através de alvas janelas, a Senhorinha Arabella estrebuchava por qualquer coisa, na sua minúscula sala. Pequeníssimas chávenas do serviço de chá das Índias Ocidentais voavam sobre a peruca poeirenta do diminuto futuro marido, enquanto ela num sibilar quase inaudível bufava de indignação, a pequenez das suas bochechas manchadas de pó-de-arroz traídas pelo púrpureo da neura que as tingia. A mosca do olho já meio esborratada, uma rede de gotas a preencher os sulcos da sua testa gorda, pequena e rabugenta.
Fiz um esforço para não me rir, dado que se ela se apercebesse da atenção que lhe dava, certamente iria levantar o queixo e zumbir dali para uma torre qualquer, abandonando-me à cegueira e à dor.
Hoje estava esfomeada por entertenimento, não pelo entertenimento em si, mas pela necessidade de ocupação vã. Tinha que esquecer.
Observar os liliputianos, que eram sim diminutos mas com carácters extremamente firmes e complexos para uma tão acentuada pequenez, era como observar granadas a quem foi retirada a cavilha. As suas formas comprimidas não conseguiam, por vezes, lidar com a acumulação de pressão e tinha de haver um escape.
Ora o escape da Senhorinha Arabella tratava-se aparentemente de tiro ao alvo à peruca do noivinho bafiento com frisbees de porcelana fina.
Senti-me desfalecer no meio da Tontura, e decidi trôpegamente embrenhar-me no enredo simplório. Tentei deitar um ouvido à conversa, no meio do ardejar de sangue a correr de fundo.
Aparentemente o noivinho, Sor Earel, tinha sido apanhado com uma das comprimidas damas de companhia de Arabella em cortesias não muito próprias de um salão de chá da corte. Ora Arabella não era pessoa de de ser egoísta com brinquedos, e sabia perfeitamente que se o noivinho se sentisse de alguma forma insatisfeito ou inseguro viria comer à palma da sua minúscula e perfumada mão. Não era isso de forma alguma que a havia irritado.
Era o facto que o noivinho havia roubado o seu pequinês - e quando digo pequinês digo "a rondar o microscópico" - para incluir na sua nefasta apresentação.
Abafei uma gargalhada dorida. Arabella olhou para cima, perscutou a escuridão com pontos azuis muito vivos e penetrantes no meio dos caracóis loiros . Mas não me viu. Mas farejou perigo e dando uma canelada no noivo anão, deu por terminada a confusão. Fiquei sem espetáculo, espraiada no lusco-fusco, apenas iluminada pela presença velada das janelinhas da casa de bonecas que pretendia passar por palácio.
Sentia que o mundo estava de pernas para o ar, e de uma forma profundamente errada, circulava na direcção correcta.
Persiste ainda a sensação de opressão, de tensão, mas agora na boca do estômago. De Revolução. De Revolta.
Aquiesci à convulsão que tomou conta de mim, e ignorando o ardor, fiquei apenas a contemplar o negro. Deixei-me consumir por qualquer coisa que ainda estremecia dentro de mim, mas que firmamente matei. Asfixiei na terra negra, e por fim, como um remate de algo há muito esperado, afoguei-me em lágrimas de alívio. O choro veio fraco e tímido. Rapidamente galopava em força, mas eu asfixiei-me e ele manteve-se silencioso.
Acordei o Poder dentro de mim, agradeci as Graças que me deram, transformei as lágrimas em dentes-de-leão, pirilampos e flores-de-cerejeira. Gastei as minhas parcas, cansadas energias para transformar aquela opressão, compressão de dentro de mim em expansão, em gratidão, em luta. Expandi-me, e senti o sabor do amargo, mas em torno de mim giram os pirilampos, e dentes-de-leão e flores-de-cerejeira, marca do Poder que embalo, e ao qual me agarro por dentro.
Visto mais do que roupa, guardo feras em mim, no meio da agitação, calo-as, tento amansá-las.
E tento, por tudo, parar o Pêndulo que se agita dentro de mim, e que não me deixa pensar.